28 de jan de 2012

Percebe?

"Imagino que a Expressão Artística seja inevitavelmente construída de duas porções: a Inspiração e a Execução. A Inspiração é o engajamento em algum aspecto do Universo que nos faça sentir a pulsação perene da Energia em que estamos todos embalados. A Inspiração é a nossa porção sutil, o que nos faz ir além da materialidade humana para compreender, admirar, lamentar – ou observar simplesmente – a vida.

Já a Execução é a tradução das experiências adquiridas durante a Inspiração em algo mais humano, portanto, mais físico, material e, por que não dizer, mas rústico do que a experiência – por demais sutil – da Inspiração. O trabalho do artista é traduzir a experiência intraduzível para que o não-artista possa ter uma ideia do que se vê no transe engajado da Arte.

Assim, na Execução, o artista produz algum tipo de estímulo aos sentidos comuns: a música para a audição, a dança para o movimento, a fotografia para a visão. Ele utiliza suas técnicas como meios, ou ferramentas por um objetivo final: despertar em cada indivíduo o estalo da sublimação do material. Cada um, assim, utiliza os ingredientes que cultivou dentro de si para reconstruir o caminho que levou o artista àquelas sensações. Por isso, a obra de arte conduz diferentemente cada pessoa, de forma que já quem diga que uma obra de arte são muitas.

Desta maneira, quando presencio a obra de arte, reconheço os “pedaços” daquele artista e atribuo à obra minhas partes próprias, sendo assim a experiência artística tão importante para a humanidade desde tempos remotos: fazemos arte para comunicar e principalmente, transcender.

As escolas de arte existe para ajudar o artista a desenvolver as técnicas necessárias à tradução daquela experiência, que, em si, de maneira nenhuma se pode ensinar. Ou seja: uma boa professora de arte pode ensinar as técnicas de desenho ou escultura a qualquer pessoa determinada a isso. Mas a Inspiração é uma busca incessante e pessoal: sem avaliações ou cobranças no final do semestre. E assim, muitos alunos destas escolas se sentem muito mais exigidos pela Execução do que pela Inspiração. Assim, formam-se atletas de gargantas, punhos e costas, de acordo com o esforço físico mais demandado pelo instrumento. Na insegurança de uma apresentação pública, peca-se por imaginar que o desafinado do acorde é mais perceptível do que a falta de paixão.

E é pela simples característica introspectiva da Inspiração que muitos alunos se deixam levar pelo vazio no que diz respeito a um Propósito Artístico: varre-se a sujeira para debaixo do tapete, anula-se a experiência pessoal e “engaja-se” no eterno exercício do meio sem um fim: a
Execução sem a precedente e imprescindível Inspiração.

Acredito que seja por isso que muitos alunos dos institutos de artes acreditem ser optativa a disciplina do engajamento. Fecham-se amedrontados em suas conchas acústicas e repetem a si mesmos que ele não é parte constituinte da Arte Completa."


Texto de Lilly Queers, publicado no jornal "Ô, Xavante!", feito por alunos da Unicamp.

Encontrei um monte deles em um banco do Instituto de Artes, e isso foi bem significativo naquela hora; me fez ficar menos intimidado por quem desenha melhor do que eu desenho, e confiar na minha própria criatividade.

Além disso, a chamada aliviou o resto da tensão: "bukkake, polícia, sidney magal, greve".

13 de jan de 2012

Pálido

Queria fazer algo consistente, algo grande e bem feito, ambicioso até. Tudo bem se for até onde eu conseguir chegar hoje, com as limitações físicas e psíquicas que não dá para driblar, mas tem que acontecer.

Músicas, desenhos e textos que toquem alguém, que orgulhem quem estiver envolvido nisso.

O problema é que só a parte visual disso é solitária, só ela te permite passar dias quieto e concentrado em seus próprios pensamentos. O resto só parece ser possível com outras pessoas: músicas feitas entre amigos, textos longos que conversem entre si sobre coisa alguma ou que formem algo maior.

É difícil achar alguém que faça bem as coisas e que queira levar isso mais além do que para a própria diversão; falta alguém que não tenha medo de fazer algo que talvez não dê o retorno esperado ou que deixe de fazer sentido logo menos.

Eu sou preguiçoso e indisciplinado, mas nisso se dá um jeito. O que não dá para esperar é alguém que te acompanhe e, enquanto isso, sentir que suas mão estão atadas.

"Tristes dos que procuram dentro de si respostas, porque lá só há espera."

25 de dez de 2011

Sem título

Descobri nesses dois dias que a internet não é um lugar para ser visitado durante o natal: de um lado, os engraçadões que não perdem a chance de fazer uma piadinha depreciativa e sagaz com qualquer coisa e que acabam se tornando eles mesmos o tio do pavê (maior mazela da vida do ser humano desde a criação do pavê, aparentemente); do outro, as pessoas que, em algum momento da vida, tiveram algum trauma que tirou a graça da data e que acreditam que a missão maior de sua vida é alertar o resto dos homens da hipocrisia da comemoração, etc etc. No meio disso, as pessoas que vem falar de religião, mas isso deixou de ter alguma credibilidade quando compararam papai noel a jesus.

Enfim, cada um gosta do que quer, mas é muita falta de amor no coração dizer que tu torce pra isso acabar para poder parar de fingir que está feliz e voltar para casa, ouvir Bob Dylan e acabar com essa falsidzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz.



Até o Mastodon gosta do natal, forte abs.

20 de dez de 2011

Vinte e um

Tem gente que se preocupa tanto em descolar um sentido imediato pras coisas que não entende que, às vezes, você tem que prestar atenção e se esforçar para tirar o que vale a pena de um monte de (ditas) baboseiras.

“Por que isso vai ser útil pra mim, hein?”

“Cala a boca e ouve, tu vai se surpreender.”

Não tem nada pior que má vontade em aprender, nego que rejeita coisas que não entende por ser de fato imbecil ou por achar que é inteligente, o que vem com o combo veia cômica afiada + preconceito disfarçado de alta cultura.
Típico pinta que faz questão de exaltar o lugar-comum de qualquer arte, mas menospreza o que é um pouquinho mais difícil de entender.

Enfim, por que eu me preocupo com isso, mesmo?

14 de dez de 2011

Mastodonte

Sua amiga chegou e ficou perto de nós dois, e ela não fez menção nenhuma de nós apresentar; ao invés disso, foi olhar alguma coisa longe dali. Eu fiquei sozinho com ela e sabia que seu nome era Ana Carla, só que mesmo assim:

“E aí, tudo bom?”

“Bom, e você?”

“Também, como é seu nome mesmo?”

“Emanuela... difícil guardar, né?”

“Vou lembrar, prazer”

“Prazer, Larissa”
____________________

Sonhei com isso e com certeza foi mais interessante em minha cabeça, mas não custa nada deixar escrito. Às vezes é bom pensar em algo que não faz sentido.

1 de dez de 2011

Ordinário

Há quase dois anos eu estava começando a gostar de Wilco, numa quarta-feira em que eu passei a noite inteira ouvindo e tocando ‘Misunderstood’, emulando pela primeira vez, com o violão alto no peito e os berros finais, Jeff Tweedy.
Desde então é uma das minhas bandas preferidas, se não for a preferida.
Eu ouvi feito bobo qualquer coisa que eu pudesse encontrar deles e gostava de ir cada vez mais fundo, descobrindo qual era a melhor versão ao vivo de cada música e quais os b-sides e demos valiam a pena.

Agora, de uns tempos pra cá, eu descobri o Black Drawing Chalks. “Music to drink, dance and fuck”, e só isso: não tem pretensão de ser bonito e nem certeiro em cada verso, descarta a necessidade de colocar tudo em termos sutis e sublimes e ao invés de acertar seu coração, te acerta logo na cara para te acordar um pouco pra vida.
Eu não preciso pegar meu violão e apertar a correia para tocar isso, eu só preciso colocar minha guitarra lá embaixo e fazer o máximo de barulho que conseguir.
É um som tão simples, fácil e divertido que me faz colocar em xeque o tempo que eu passei me dedicando ao Wilco e a importância que a música deles de fato tem para mim.

Mas eu esqueci que chega uma hora em que tudo perde uma parte do sentido e da força sobre você, e com o Black Drawing Chalks não foi diferente: assim como o Wilco eles foram caminhando devagar (ou nem tanto) para o seu ápice, seu maior momento de significado, algo como o ponto em que eu sempre quis chegar depois de seguir esse ou aquele caminho.
Depois disso as coisas se desgastam e você (eu) precisa voltar para as outras coisas que, há tempos, estavam esquecidas; recuperar o significado e a importância que, quando colocados a prova, mostram sua força.

Acaba que, de pouquinho em pouquinho, consegui conciliar os dois sem preferência por nenhum. Cada um com seu próprio sentido, cada um com o som que se encaixa em cada momento, e é isso o que torna tudo interessante; às vezes ouvir sobre o amor te diz mais, às vezes não.

16 de nov de 2011

Belezza

Mais de mês sem escrever.

Não que eu faça isso só para reclamar, mas nesse tempo eu resolvi cada picuinha que foi aparecendo sozinho, sem necessidade de um texto retratando os maiores problemas do país (no que diz respeito ao meu quarto), seja para chegar a uma conclusão pacificadora ou só para expurgar a frustração mesmo.

Fui largando mão das coisas que me enchiam, parei de ligar para as pessoas que não iam dar retorno e, de pouquinho em pouquinho, voltei a ficar confortável na minha própria pele de novo.
Resolvi colocar coisas em prática também, e aprendi a pescar ideias ao invés de esperar elas virem milagrosamente, trabalhar nelas feito um filho da puta e a pensar em termos mais longos do que um desenho apenas. Coisa de projetos, etc etc.

Tirando isso (frescuras), fui no SWU. Me senti lá de facto quando ouvi o começo de ‘666 Conducer’, do Black Rebel Motorcycle Club, só fui entender que ia ver os caras do Sonic Youth quando faltava cinco minutos para começar e gritei ‘Porra! Caralho!’ o mais alto que consegui no Faith No More.

Além disso, foi bacana passar frio, tomar chuva, agonizar do Megadeth ao Alice In Chains (que serviu pra dar um cochilo esperto) e pisar em uma mistura formidável de barro com mijo a maior parte do tempo.

Agora é manter as más vibrações e conquistar cada vez mais vitórias para o meu histórico na escola da vida. Rumo ao segundo lugar.